Depois que eu te perdi cortei os cabelos. Clássico. O ritual mais antigo de todas as mulheres, a alquimia básica da metamorfose necessária à perda de um elemento fundamental que, subtraído, torzna o objeto uma nova coisa. Depois que eu te perdi cortei a pele pela primeira vez, deixando que o sangue escorresse no meu caldeirão, depois que te perdi virei bruxa, cabelos e sangue e lágrima, e, porque eu roubei um pouco do seu alento para mim, sobrou material para uma nova Gênesis: fiz uma mulher e, da costela dela, tirei você. 

Tenho uma imagem recorrente na qual essa mulher tem os cabelos compridos e você os penteia. Nunca sei se é sonho ou lembrança, uma vez que essa mulher evidentemente sou eu e todos os homens, de um jeito ou de outro, sempre foram você. As suas mãos são enormes e só não são maiores que os meus cabelos. Estou sentada numa penteadeira que nunca existiu, que só está lá por conta do espelho, que só permanece para que eu olhe, no reflexo, a sua imagem penteando meus cabelos. Você os puxa gentilmente como se a minha cabeça fosse um tear, como se os fios finos que levam ao mecanismo da minha consciência só não ficassem enozados por conta sua. A minha pele reage, abrindo ou fechando um pouco mais cada folículo aos seus movimentos. Sinto um formigamento na base do crânio que desce até os pés, mas se detém na parte rasgada que me faz uma mulher. A pence que faz com que todo o meu corpo de boneca de pano se mexa, possa andar, viver. Você coordena os fios, tecendo mais de mim, trançando a parte que eu acho que está incompleta porque todos cometemos esse engano. Vou me inclinando, deixando a ponta dos cabelos mais perto de você, e, depois que termina, você aperta seus dedos contra a minha testa, passando-os pela franja, esbarrando no meu nariz, leve. Como um autômato, eu reajo fazendo as engrenagens dentro de mim se moverem, lubrificadas. Finjo que sou sua obra; te dou a permissão de me inventar um pouco de volta. 

Acho tudo isso muito erótico, um homem que é sempre você tocando no cabelo que eu perdi, o cabelo da mulher que só sou eu o tempo todo. Acho mais erótico do que quando você estava aqui de verdade e puxava meu couro cabeludo na cama, quando os seus próprios cabelos enormes caíam sobre os seus olhos, e eu não os via mas via o seu sorriso, sentia o brilho das pupilas no escuro, mistério. Mistério que é segredo, segredo que só tem uma vogal diferente de sagrado, mas nós éramos profanos com a profundidade de dois anjos caídos que despencando de tão alto abrem crateras na terra e dão vida ao inferno. 

Gostaria de ter sido mais romântica, gostaria de ter pegado a tesoura com que cortei os meus cabelos para cortar uma madeixa dos seus. Gostaria de guardar um anel dos seus cabelos e declará-lo meu, o único que tive, o único que você jamais deu. Seu cabelo era todo anelado, espiralava-se feito as linhas escritas de um código genético que afinal é a origem, que afinal é você. Sei que você chegou antes de ter me visto, que eu te inventei por cima do passado como memórias forjadas em experimentos psiquiátricos antigos, como outra vida, outra vida. Esqueci que você era algo separado de mim e te matei um pouquinho. Na minha história quem se engasgou com a maçã fui eu, e quem a ofereceu para mim, já sabendo do seu gosto amargo, foi você. 

Eu comeria os frutos mil vezes, deixando que eles escorressem escarlates da minha boca apenas para que você a beijasse. E seria expulsa mil vezes, tendo cruzado a linha entre o céu e o inferno apenas para lembrar sempre que o paraíso também doía. 

Assim como o amor. 


Maria Luiza Artese

Maria Luiza Artese nasceu em 1992 no Rio de Janeiro, mas saiu da cidade tão cedo que não ousa se chamar carioca. Viveu em Salvador antes de morar em Fortaleza, tendo o oceano como único ponto fixo. Decidiu ser escritora aos 12 anos, vencendo diversos concursos de conto e poesia na escola, e escreveu um pequeno livro de poemas épicos aos 16, mas prefere que estes permaneçam aventurando-se na gaveta. Foi colaboradora do portal Homo Literatus, publicou o romance Olhos de Oceano (2014) e participou de diversas coletâneas de contos e poesia, como O Corvo (Empíreo, 2015), Farol: Contos do Ateliê de Narrativas de Socorro Acioli (Moinhos, 2019), Um Fragmento Chamado Vida (Editora Modo, 2019) e Antologia Poética Literatura Br (2021). Colaborou para jornais e revistas literários como o RelevO e a Para Mamíferos, e aguarda até hoje pelo seu diploma honorário de graduanda em Psicologia, Moda e Letras, que cursou até concluir, finalmente, seu bacharelado em Jornalismo. É autora do romance A História Quebrada da Completude (Casa Philos, 2025) e participou da programação da Casa Philos na Flip 2023, como autora convidada na mesa A Fantástica Fábrica de Literatura.

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